domingo, 2 de outubro de 2016

Do caos à ressignificação

Não há caos.

Há, apenas, níveis de percepção do desenrolar da vida.

Durante a semana, de forma bastante despretensiosa e divertida, estudamos os traumas de infância e a sua relação com padrões corporais e comportamentais na vida adulta. Chegamos à conclusão de que ninguém passa ileso à primeira infância.

Quanto menor a criança, menor o seu universo. Quanto mais indefesa, cada fato ou cada ato atinge de forma mais severa o seu desenvolvimento emocional.

Adultos, identificamos e racionalizamos, mas, mesmo conseguindo compreender mentalmente o que foi vivido, o emocional - ainda estacionado na fase em que houve o trauma - depende de uma ressignificação em um nível mais sutil, objetivo raramente atingido.

Ontem voltei a conversar sobre o assunto com uma das minhas Marias, o que foi muito enriquecedor, pois ambas vivemos situações parecidas - de forma bastante diferente - e passamos por consultórios de todos os tipos de terapeutas. Éramos, ali, duas mulheres maduras, expondo as suas percepções sobre as questões de infância e adolescência que vivemos e chegamos à conclusão que, sim, quando a criança chora dentro de nós, o racional simplesmente não consegue se fazer ouvir.

Até então não tinha percebido que tudo eram apenas passos.

Mais tarde, uma criança chorava - o que jamais passa despercebido por mim. Eu sentei no chão de forma que eu pudesse ficar na altura dos olhos dela e, me olhando profundamente, ela me contou uma história. Eu respirei fundo e pedi iluminação para que eu acessasse as palavras corretas (compreensíveis). Então eu contei um pouco da minha vida e de como lidei com uma situação muito parecida, ressaltando o quanto ela era perfeita e amada. Contei pra ela que cada um tem um anjo da guarda, um amigo inseparável, e que Deus se alegra com a nossa felicidade.

Quando ela se afastou eu desabei e chorei como não chorava há muito tempo. O meu corpo começou a responder com letargia, como se eu estivesse alcoolizada.

Hoje acordei e, durante o café, comecei a analisar toda essa sequência com o meu marido e concluí que, enquanto eu consolava aquela criança, fantasticamente eu consolava a mim mesma. Ela foi apenas um canal de acesso a uma cura necessária, que eu havia negligenciado. Éramos iguais. Exatamente iguais.

Eu olhei pra mim, quando olhei para ela. Eu consolei a mim, quando a consolei. Eu chorei por mim, quando chorei por ela.

Não era apenas uma criança chorando, eram duas. Um lindo espelho. Uma bênção. Uma cura.

Não há nada de errado em ser feliz, enquanto alguém ainda está triste. 

Não há nada de errado em amar, enquanto alguém ainda sofre.

Compreensão. Acolhimento. Digestão. Ressignificação. Cura.

Gratidão.

5 comentários:

  1. Que alcanse maravilhoso na sua compreensão dos fatos... Gratidão por compartilhar... Bj no coração!!!

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  2. Que alcanse maravilhoso na sua compreensão dos fatos... Gratidão por compartilhar... Bj no coração!!!

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  3. Nossa! Você sou eu. Eu sou você. Me vejo nas suas palavras!

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    1. Amada!!! Difícil quem não passou por isso, né? :)

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